Eu estava tão distraída que não ouvi os passos pesados no corredor. Quando me virei, Alexandre estava parado na porta. Ele não parecia zangado como no dia anterior, mas seu olhar estava fixo em um vaso de jasmim que eu havia acabado de podar.
- Minha mãe costumava dizer que o jasmim floresce melhor sob pressão - ele disse, com a voz tão baixa que quase se perdia na brisa que entrava pela fresta da janela.
- Ela estava certa - respondi, limpando o suor da testa com as costas da mão suja de terra. - Algumas das coisas mais bonitas do mundo precisam de um pouco de luta para sobreviver.
Ele deu um passo para dentro do jardim, o primeiro passo voluntário que eu o via dar naquele lugar. O terno caro parecia deslocado entre o verde e a terra, mas havia algo na sua expressão que o tornava... humano. Por um segundo, o bilionário implacável desapareceu, dando lugar a um homem que sentia falta da mãe.
- Por que você faz isso, Helena? - perguntou ele, aproximando-se. - Você poderia estar gastando o crédito ilimitado que eu te dei em lojas na Quinta Avenida, mas prefere se sujar de terra por plantas que nem são suas.
- Porque roupas caras não têm raiz, Alexandre - retruquei, sustentando o olhar dele. - E porque eu prometi que salvaria este lugar. Eu cumpro meus contratos, mesmo os que não estão no papel.
O olhar de Alexandre mudou. A intensidade cinzenta de seus olhos desceu para os meus lábios e, por um momento, o ar entre nós pareceu carregar uma eletricidade perigosa. Ele deu mais um passo, diminuindo a distância a ponto de eu conseguir sentir o calor que emanava do seu corpo. Meu coração disparou, uma reação que eu tentava desesperadamente rotular como medo, mas que se parecia perigosamente com outra coisa.
Justo quando eu achava que ele faria algo - talvez me beijar, talvez me expulsar dali - o som estridente de um salto alto ecoou pelo corredor de mármore lá fora.
- Alexandre? Querido, onde você se meteu? - Uma voz feminina, aguda e carregada de uma falsa doçura, interrompeu o momento.
Alexandre se afastou de mim instantaneamente, sua máscara de gelo voltando ao lugar com uma velocidade assustadora. Eu me senti subitamente exposta, com meu avental sujo e cabelos bagunçados.
Uma mulher alta, loira e vestida em um conjunto de seda branca que gritava "riqueza antiga", apareceu na porta. Seus olhos azuis me percorreram de cima a baixo com um desprezo que fez meu sangue ferver.
- Oh, eu não sabia que você tinha contratado uma nova jardineira, Alexandre - disse ela, com um sorriso de escárnio. - Mas ela não é um pouco... descuidada com a própria aparência?
- Victoria - a voz de Alexandre era neutra, mas havia um aviso nela. - Esta não é a jardineira. Esta é Helena, minha noiva.
O sorriso de Victoria murchou no mesmo instante. A tensão na sala dobrou de tamanho. Eu não sabia quem era aquela mulher, mas o jeito como ela olhava para Alexandre e o ódio instantâneo que ela direcionou a mim deixavam claro: o nosso contrato de 80 capítulos acabara de ganhar sua primeira grande vilã.