O carro parou em frente ao suntuoso edifício da Volkov Corp, um arranha-céu de vidro espelhado que parecia tocar as nuvens e refletia o sol do meio-dia com uma intensidade cegante. Para o mundo, aquele prédio era o símbolo do progresso; para mim, parecia a entrada de uma prisão de luxo. Alexandre desceu primeiro, com sua postura impecável de comando, e, para minha surpresa, deu a volta no veículo para abrir a porta para mim.
Antes que eu pudesse sair, ele se inclinou, seu rosto a centímetros do meu. O cheiro de sândalo e poder que emanava dele era quase inebriante.
- Lembre-se, Helena - ele sussurrou perto do meu ouvido, enquanto sua mão pousava possessivamente na curva da minha cintura, um toque que pretendia ser carinhoso para quem olhasse de fora, mas que eu sentia como um aviso. - Para as pessoas lá dentro, você é a mulher que conseguiu o impossível: amolecer o coração do "Bilionário de Gelo". Não me desaponte. Se eles sentirem uma rachadura na nossa história, o contrato acaba e sua loja vira entulho antes do pôr do sol.
O toque dele queimava através do tecido fino do vestido azul que ele me obrigara a usar. Saímos do carro e entramos no lobby monumental. Todos os olhares - desde a recepcionista até os seguranças - se voltaram para nós em um silêncio reverente. Eu conseguia ouvir os sussurros admirados: "É ela?", "Onde ele a encontrou?". Mantive a cabeça erguida, lembrando-me de cada pétala de flor que eu estava tentando salvar na minha loja. Se Alexandre Volkov queria uma atuação digna de cinema, ele teria a melhor de todas.
A sala de reuniões no último andar estava preparada para um almoço privativo. O ambiente era dominado por homens de cabelos grisalhos, ternos caros e expressões severas que pareciam avaliar meu valor de mercado. O almoço foi servido em um silêncio tenso, quebrado apenas pelo som dos talheres de prata contra a porcelana fina, até que um dos conselheiros mais antigos, o Sr. Miller, me encarou com olhos curiosos.
- E então, Srta. Ferreira, todos estamos morrendo de curiosidade - começou ele, com um sorriso que não me inspirava confiança. - Como exatamente você conheceu o nosso Alexandre? Ele sempre foi tão... focado no trabalho que achamos que ele se casaria com o código de ética da empresa.
Senti o olhar de Alexandre queimando sobre mim. Ele estava me testando, esperando para ver se eu desmoronaria sob a pressão daqueles tubarões.
- Foi na minha floricultura - respondi, forçando um sorriso doce e sereno que eu praticara mentalmente no carro. - Alexandre entrou procurando algo que trouxesse um pouco de vida ao seu escritório cinzento e acabou encontrando algo que ele não sabia que precisava desesperadamente. Foi um encontro... inesperado, Sr. Miller. Mas aprendi que as melhores coisas da vida não podem ser quantificadas em planilhas de lucro ou margens de dividendos.
Vi o canto da boca de Alexandre tremer levemente. Ele estava genuinamente surpreso com a minha audácia e a facilidade com que eu mentia para proteger o que era meu.
- Ela é fascinante, não é? - Alexandre disse, estendendo a mão sobre a mesa para cobrir a minha. Ele entrelaçou nossos dedos, apertando-os com uma força que dizia "continue assim". O calor da palma da mão dele contra a minha me deixou tonta por um segundo, uma reação física que eu odiava sentir. - Helena me lembra que existe um mundo vibrante fora dessas paredes de vidro e aço.
O almoço prosseguiu e eu consegui encantar cada um daqueles homens, transformando a desconfiança deles em admiração. Mas, por baixo da mesa, a mão de Alexandre continuava segurando a minha firmemente, como se ele tivesse medo de que eu fugisse a qualquer momento. Quando finalmente voltamos para a privacidade da limusine, ele soltou minha mão instantaneamente, como se o contato o tivesse queimado.
- Você foi bem, Helena. Por um momento, até eu quase acreditei no seu conto de fadas - ele disse, a voz voltando à sua frieza habitual enquanto ajustava o punho da camisa.
- Eu sou uma excelente mentirosa quando o destino da minha família e o legado do meu pai dependem disso, Alexandre - respondi, limpando o suor frio das mãos. - Mas não se acostume. O contrato diz que devo ser sua esposa para o conselho, não sua fã ou sua escrava.
Ele soltou uma risada curta e seca, um som raro que me causou arrepios.
- Veremos quanto tempo essa sua resistência dura, Helena. O jogo só está começando.
Naquele momento, enquanto o carro nos levava de volta para a mansão, percebi que o perigo real não era apenas o contrato ou a falência. O perigo era que, apesar de todo o meu ódio, o toque de Alexandre estava começando a despertar algo em mim que eu não sabia como controlar.