Eu ainda conseguia sentir a pressão dos dedos dele na minha cintura e o modo como o seu corpo se movia em sincronia com o meu. Naquela noite, diante daquelas pessoas e da venenosa Victoria, nós não fomos apenas um contrato. Fomos uma equipe. E essa percepção era mais aterrorizante do que qualquer ameaça que Victoria pudesse fazer.
Quando o carro finalmente parou na entrada da mansão, Alexandre saiu sem esperar que o motorista abrisse a porta e caminhou em direção ao hall de entrada com passos largos. Eu o segui, sentindo o peso do vestido de seda e a exaustão física do dia. Assim que as grandes portas duplas se fecharam atrás de nós, o isolamento acústico da mansão nos envolveu.
- Você não precisava ter dito aquelas coisas para o Sr. Higgins - Alexandre disse subitamente, parando no meio do hall sem se virar para mim. - Você se expôs mais do que o necessário.
- Eu disse a verdade - respondi, parando a poucos degraus da escadaria. - Se você queria uma noiva de mentira que ficasse calada enquanto era humilhada, contratou a pessoa errada. Eu não deixo que ninguém me pise, nem mesmo seus amigos bilionários.
Ele se virou devagar. Seus olhos cinzas estavam escuros, quase pretos sob a luz suave do lustre de cristal.
- Victoria não é minha amiga. E o mundo onde você acabou de entrar não se importa com a sua "verdade", Helena. Eles se importam com a sua fraqueza. E hoje, ao mostrar que ela pode te atingir, você deu a ela o combustível que ela precisava.
- Ela não me atingiu! - rebati, dando um passo à frente, a voz subindo de tom. - O que me atinge é o seu desprezo. O que me atinge é o fato de você me tratar como uma ferramenta de negócios e depois agir como se eu devesse te agradecer por isso. Eu salvei sua pele naquele salão!
- Você acha que eu não sei disso? - Alexandre rugiu, aproximando-se com uma velocidade que me fez recuar até minhas costas baterem no corrimão da escada. Ele parou a centímetros de mim, as mãos apoiadas na madeira dos dois lados do meu corpo, me cercando. - Você acha que eu não percebi como todos os homens naquela sala olhavam para você? Você acha que eu não senti como você tremia nos meus braços enquanto dançávamos?
A respiração dele estava curta e quente contra o meu rosto. O perfume de sândalo e couro, agora misturado com o cheiro metálico da noite, estava me deixando tonta. Eu conseguia ver o latejar da veia no pescoço dele, a tensão absoluta que o dominava.
- Você disse que eu era sua propriedade - sussurrei, sentindo meu coração martelar contra as costelas. - Propriedades não tremem.
- Você sabe muito bem que não é apenas uma propriedade - ele disse, a voz descendo para um tom rouco e perigoso. - Esse é o problema, Helena. Você é uma complicação que eu não previ. Você é o caos que eu tentei manter longe da minha vida organizada.
O silêncio que se seguiu foi tão denso que eu podia ouvir os batimentos cardíacos de ambos se fundindo. Alexandre baixou o olhar para os meus lábios e, por um segundo eterno, eu tive certeza de que ele ia quebrar a última regra do nosso contrato. Eu queria que ele quebrasse. Eu odiava o quanto eu queria.
A mão dele subiu, os dedos roçando suavemente o meu pescoço antes de se enterrarem no meu cabelo, puxando minha cabeça levemente para trás. O contato fez um choque percorrer minha espinha.
- Eu deveria te mandar de volta para aquela floricultura agora mesmo - ele murmurou, o rosto se aproximando do meu. - Antes que você destrua tudo o que eu construí.
- Então mande - desafiei, minha voz mal passando de um sopro.
Em vez de responder, Alexandre fechou os olhos e encostou a testa na minha. Era um gesto de derrota, de alguém que estava lutando contra os próprios instintos. Ficamos assim por o que pareceu uma eternidade, suspensos entre o ódio que nos uniu e a atração que ameaçava nos consumir.
Subitamente, ele se afastou, soltando-me como se tivesse se queimado.
- Vá para o seu quarto, Helena. Amanhã cedo temos uma reunião com os advogados para tratar da transferência da escritura da loja. Não se atrase.
Ele deu as costas e caminhou em direção ao escritório, sem olhar para trás. Eu fiquei ali, segurando o corrimão para minhas pernas não falharem. Eu tinha vencido a batalha com Victoria, mas sentia que estava perdendo a guerra contra meus próprios sentimentos.
Subi as escadas me sentindo mais sozinha do que nunca. Eu sabia que o contrato de 80 capítulos estava apenas no início, mas a cada página escrita, as linhas entre a mentira e a realidade estavam se tornando perigosamente borradas. E eu temia que, quando chegássemos ao fim, não sobrasse nada da Helena que entrou naquela mansão apenas para salvar algumas flores.