Darlan fecha o notebook com calma excessiva. Os dedos não tremem. O rosto não denuncia nada, mas eu conheço aquele intervalo. É o segundo em que ele cruza dados antes de ouvir versões.
- Não fui informado da saída.
Engulo em seco.
- Foi uma decisão de última hora. Ela não quis pressão. Disse que seria rápido. Foi com a segurança da empresa.
A palavra empresa soa pequena demais.
Darlan se levanta.
Não anda ainda. Só fica em pé.
- Quem autorizou?
- Eu. - respondo. Rápido. Antes que ele pergunte de novo.
O olhar dele vem direto no meu. Não é raiva. É cálculo. Raiva grita. Aquilo mede danos.
- A segurança da empresa não cobre deslocamento externo sem escolta dedicada - ele diz. - Você sabe disso.
- Era um trajeto curto.
- Erros não precisam de distância. Só de brecha.
A porta se abre antes que eu responda.
Dois seguranças entram. Estão suados. Um deles segura o rádio com força demais.
- Senhor - o mais alto começa. - Houve uma abordagem no semáforo.
Meu estômago afunda.
- Relata - Darlan diz. Seco.
- Dois veículos. Fechamento rápido. Profissional. Tiraram as duas do carro em menos de vinte segundos. Tentamos acompanhar, mas eles trocaram de rota dentro da comunidade. Perdemos o visual.
O tablet escapa da minha mão antes que eu perceba.
Bate na mesa e racha a tela com um estalo seco.
Ninguém reage, eu também não.
A dor sobe pela mão quando apoio o peso nela. Ignoro.
Não foi o aparelho que quebrou.
Foi o controle.
Meu estômago revira antes que eu pense em qualquer coisa.
O número fica ecoando, vinte segundos e não sai.
É rápido o suficiente para ela não entender. Rápido o bastante para ninguém impedir.
A mão não para de tremer quando encosto na mesa. O ar pesa no peito como se algo tivesse sido colocado ali à força, e tudo que penso volta sempre para o mesmo ponto, sem saída. Não é pânico. É a certeza sólida de que eu errei e não existe gesto grande o bastante para apagar isso agora.
Ela estava no fim. Eu sabia e mesmo assim, deixei.
O peito aperta de um jeito errado, como se algo tivesse deslocado por dentro. Engulo em seco e não passa. O gosto é ácido, quente. Minha cabeça gira uma vez e para.
- Comunidade onde? - Darlan pergunta.
- Região da Laje.
O nome não vem completo. Não precisa.
Quando escuto, o chão some por um segundo.
Não é medo. É certeza.
Eu não perdi o controle da situação, eu entreguei.
Darlan pisca uma vez.
- Quem estava com ela? - ele pergunta.
- A secretária dirigia... Lílian.
Algo passa pelo rosto de Darlan agora. Não é surpresa. É agravamento.
Ele vira de costas para mim e já está andando quando fala:
- Esquema de crise. Agora!
- Darlan... - tento acompanhar.
Ele não diminui o passo.
- Você ficou responsável pela decisão. Agora fica responsável pelo silêncio.
Dou um passo à frente antes de pensar, só um.
O maxilar trava, o impulso é físico, não lógico.
Darlan para, mas não se vira, ele sente.
Se eu disser qualquer coisa agora, não tem volta.
Engulo seco e fico onde estou.
Vinte segundos, não dá para tirar isso da cabeça.
Vinte segundos.
Minha mulher grávida, desprotegida e tudo por minha decisão.
Enquanto eu fico parado ali, tentando não pensar no que autorizei, o corpo de Lara não está esperando ninguém decidir por ela. Em algum lugar da cidade, longe das salas envidraçadas e das regras que eu quebrei, ela está sozinha no chão de um lugar que não perdoa fraqueza. E enquanto eu ainda posso escolher ficar em pé, o corpo dela talvez já esteja sendo forçado a escolher entre sobreviver... ou parir.
Se Lara não voltar...
Não existe justificativa grande o bastante.
Eu não perdi ela, eu autorizei a perda.
E a pergunta que não me larga é simples e cruel:
Quantos minutos de erro custam uma vida inteira?
DARLAN
O elevador não espera.
Enquanto desce, já estou no telefone.
- Derick. Rastreio total. Agora. Última posição, cruzamento de câmeras, sinal morto, tudo.
- Alguma janela de tempo? - ele pergunta.
- Todas. Não me interessa o passado. Me dá onde ela está.
Saio do elevador andando rápido. O hotel fica a dois quarteirões da Sinclair. Entro direto no quarto, jogo a jaqueta na cadeira, abro o notebook.
Derick retorna em menos de três minutos.
- Achei. Não foi improviso. Usaram bloqueador curto, mas erraram na triangulação final. Elas estão dentro da área da Laje. Setor fundo. Casa fixa.
A tela mostra o ponto vermelho.
Não piscando. Estável.
- Confirmação visual? - pergunto.
- Não. Mas ninguém some assim sem permissão ali.
Permissão.
- Quantos acessos? - continuo.
- Três entradas. Todas fechadas. Controle de rádio ativo.
Fecho o notebook.
- Mobiliza. Não avisa ninguém fora do meu círculo. - pego as armas, confiro o carregador. - Se ela estiver viva...
Não termino a frase.
Desço de novo. Já falando com a equipe de intervenção.
- Não é resgate. É invasão. Ninguém entra gritando. Ninguém negocia antes de eu chegar.
- Derick. Linha fechada.
- Já está.
- Ela está viva.
O ar volta aos meus pulmões de um jeito curto, contido. Não alivio. Alívio vem depois. Agora é foco.
- Estado? - pergunto.
- Crítico, mas consciente até pouco tempo atrás. Estão mantendo. Não avançaram. Ainda.
Aperto o maxilar.
- Local confirmado?
- Barraco fixo. Setor fundo. Comunicação interna por rádio amador. Código fechado. Não é lugar pra subir agora.
Fico em silêncio. Ele sabe que eu não gosto dessa resposta.
- Já falei com o Don - Derick continua. - Planta completa, rotas, recuo, contenção. Tudo criptografado. Você recebe em dois minutos.
- Autorização?
A pausa vem curta. Calculada.
- Só à noite. Se subir agora, vira guerra aberta. Eles se fecham. Ela vira escudo.
Meus dedos apertam o telefone até doer.
- Então ninguém toca em nada até escurecer - digo. - Ninguém assusta o terreno. Ninguém chega perto do barraco.
- Já orientei. - Ele hesita um segundo. - Darlan...
- Fala.
- Eles não sabem quem você é ainda.
Um canto da minha boca sobe, sem humor nenhum.
- Ótimo.
"..."
Entro no carro.
A cidade passa rápido demais.
Lara saiu do protocolo.
Lílian ampliou o risco.
Alguém autorizou isso.
Não pode.
Eles abriram o inferno sem saber quem vinha atrás.
Tocaram no que não era deles.
Quando eu sorrir, ninguém vai confundir isso com misericórdia.
A única dúvida agora é:
Quem vai estar vivo para ver o meu sorriso virar a própria desgraça?