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Ele Não É Meu Pai! O Herdeiro Protegido Pela Máfia.
img img Ele Não É Meu Pai! O Herdeiro Protegido Pela Máfia. img Capítulo 6 QUANDO O CONTROLE É UMA ILUSÃO
6 Capítulo
Capítulo 9 QUANDO O AMOR NÃO SABE SE FICA img
Capítulo 10 QUANDO O MEDO ACORDA ANTES DE MIM img
Capítulo 11 QUANDO O DIABO VOLTA AO MORRO img
Capítulo 12 QUANDO O SANGUE RESPIRA img
Capítulo 13 ANTES DO PRIMEIRO ENCONTRO img
Capítulo 14 ANTES DO PRIMEIRO TOQUE img
Capítulo 15 O QUE EU NÃO POSSO QUEBRAR img
Capítulo 16 O SILÊNCIO QUE ANDA ARMADO img
Capítulo 17 O ERRO DE CONTAR A VERDADE img
Capítulo 18 RESPIRAR DE NOVO img
Capítulo 19 ONDE ESTÁ DANUZA img
Capítulo 20 ENTRE O NOME E O FÔLEGO img
Capítulo 21 A SENHORA DA PADARIA img
Capítulo 22 O QUE EU MOVI SEM CONTAR img
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Capítulo 6 QUANDO O CONTROLE É UMA ILUSÃO

Darlan

O primeiro som errado é o do monitor.

Não é alarme.

É falha.

Um ritmo que perde força no meio da batida.

O médico não me encara.

O cheiro metálico já tomou o quarto antes mesmo de alguém dizer qualquer coisa.

Ele fala para a prancheta, para os números no monitor, para qualquer coisa que não sejam meus olhos. A mão treme quando ajusta o papel. Não é medo de sangue. É medo de decidir.

Quem sustenta meu olhar é a médica.

Não por desafio, por responsabilidade.

Mesmo assim, só por dois segundos. O bastante para eu entender.

Cheguei tarde.

Não por atraso físico.

Por erro de cálculo.

Por acreditar que ainda havia margem.

O mundo costuma esperar quando eu ordeno.

O corpo dela não esperou.

O médico para no meio da frase.

Franze a testa.

Olha de novo para o monitor.

- Não... isso não estava assim agora.

Dou um passo à frente.

- O quê?

O som muda.

Não para.

Mas perde ritmo.

- A pressão dela está caindo - o médico diz, agora sem fôlego. - E o bebê respondeu.

O monitor emite um som mais grave, irregular.

Não é alarme ainda.

É pior, é um aviso.

A enfermeira já empurra a maca.

- Se isso continuar por mais alguns minutos, vamos ter que escolher - conclui o médico.

O chão some debaixo dos meus pés.

- Escolher o quê?

O médico não responde de imediato.

Só então diz:

- Se a pressão continuar caindo, posso perder os dois.

- Quero sala limpa agora. - digo.

Gente entra e sai. Luvas. Máscaras. Luzes mais fortes.

Lara está na maca, o corpo arqueado, suado, tremendo. Os olhos se perdem no teto e voltam. A mandíbula trava a cada onda que atravessa o ventre. Ela não grita sempre. Às vezes só prende o ar e aperta os dedos até os nós ficarem brancos.

Isso é pior.

- Segura a cabeça dela. - a médica diz para alguém.

Lílian obedece. Não chora. Não fala. Está pálida, mas inteira. É a única ali que ainda funciona sem protocolo.

- Quanto tempo? - pergunto.

- Não dá para prever.

- Resposta errada, doutor.

- Me dá opções.

Ele abre a boca. Fecha. Olha para a médica como quem pede permissão.

- O corpo dela entrou em exaustão. - a médica diz. - O bebê está em sofrimento, preciso iniciar a cesárea com urgência.

O monitor dá um salto.

Um número despenca.

A médica estica o braço e empurra o médico para fora do caminho.

- Não toca mais nela. Agora é comigo.

A enfermeira empalidece.

- Doutora... a frequência...

A médica não responde.

Só diz:

- Vamos iniciar o protocolo, não podemos perder o bebê.

O silêncio que se instala não é dúvida. É limite.

Olho para Lara. O abdômen endurece de novo, uma contração longa, profunda. Ela leva a mão entre as pernas sem perceber. Não é escolha. É reflexo.

- Não... - ela murmura.

Não tem saída.

Não tem controle.

Não tem nada.

- Prepara a sala cirúrgica. - digo.

A médica não se mexe.

- Eu já mandei. - ela responde. - Mas preciso ser clara. Ela respira fundo antes de continuar.

- Não por medo. Por ética.

- Essa decisão não cabe mais a você.

Não é desafio. É limite. Pela primeira vez alguém não recua diante do meu cargo, do meu nome ou da minha sombra. Ela só vê mãe e filho.

- O quê?

- Eu não vou esperar autorização enquanto a pressão cai e o feto sofre. - diz. - Se eu atrasar, eu respondo por homicídio. E não vou.

Não levanta a voz. Não treme. É pior assim.

Por um segundo, penso em impor. É um instinto antigo. Controle absoluto. O mundo sempre cedeu quando eu avancei um passo.

Olho para Lara de novo. O rosto contraído, os olhos úmidos, o corpo empurrando sem pedir. Ela não está aqui. Está dentro de algo que não para.

- Darlan... - ela chama, baixo. Não sei se é meu nome ou só um som. - Não deixa levarem o meu bebê...

Ela não pede proteção. Pede permanência. Não quer que eu salve, quer que eu fique. E isso desmonta tudo em mim.

Ela não fala como quem pede. Fala como quem se despede sem saber.

E isso me atinge mais do que qualquer arma apontada.

Não prometo nada.

- Eu estou aqui. - digo.

É a única coisa que ainda não me foi tirada.

A maca se move. Portas se abrem. Luz branca, o cheiro muda. Antisséptico. Metal.

Dou as ordens enquanto ando.

- Segurança total no perímetro. - falo no comunicador. - Ninguém entra sem minha autorização. Ninguém sai.

Confirmações chegam rápidas. Posicionamentos. Travas e silêncio operacional.

Puxo o telefone.

- Davi.

Ele atende na primeira chamada.

- Fala.

- Ela entrou em estado crítico. - digo. Sem rodeio. - Cesárea de emergência.

Silêncio do outro lado. Curto. Pesado.

- Onde você está? - ele pergunta.

Passo o endereço. Não repito. Ele anota na primeira.

- Avise o Marlon. - continuo. - Agora.

- Eu fico na contenção.

- Fica vivo.

Encerro.

A médica volta com a touca ajustada.

- Vamos iniciar a anestesia. - informa.

- O bebê? - pergunto.

Ela sustenta meu olhar e responde:

- Está vivo.

- É só o que posso afirmar agora.

Por enquanto é o máximo que existe.

Lara se mexe quando a anestesia começa a agir. Um reflexo de defesa. Lílian segura os ombros dela.

- Fica comigo. - Lílian pede, a voz quebrando pela primeira vez.

- Eu volto. - digo para Lara, baixo, perto do ouvido. - Eu não saio daqui.

Não sei se ela escuta.

Os olhos dela piscam lento. O corpo relaxa errado. O monitor muda de ritmo. Alguém xinga baixo. Outro ajusta algo rápido demais.

- Pressão caindo. - a médica avisa.

O mundo afunila. Portas se fecham na minha frente.

Fico do lado de fora.

Pela primeira vez, não posso entrar. Não posso intervir. Não posso decidir.

O relógio na parede não faz barulho. Mesmo assim, cada segundo pesa.

Ninguém me desafia quando a porta fecha. Não porque eu grite, mas porque não sobra espaço para erro. Eu não explico ordens, não justifico escolhas e não aviso antes de agir. Aqui dentro não existe acaso, destino ou piedade. Existe só o que eu deixo acontecer.

Penso no que não vi. No trajeto. Na falha. Na brecha mínima que virou tudo isso. Não adianta. O corpo dela não negocia com culpa.

Um enfermeiro passa correndo. Outro empurra um carrinho com instrumentos. Sangue em uma bandeja. Não sei se é para ela.

Encosto a mão na parede fria. Firme. Não é apoio. É limite.

Sempre controlei território e homens. Sempre soube quando avançar e quando parar.

Aqui, não.

Aqui, o inferno não pede permissão.

A porta continua fechada.

E tudo o que eu não posso controlar está do outro lado dela.

O monitor muda de som de novo.

Não é falha, é alarme.

A porta ainda está fechada quando a médica grita lá dentro:

- Bradicardia fetal!

O som estoura.

Não oscila.

Não avisa.

Um dos números despenca de uma vez só.

Alguém xinga.

Outro empurra o carrinho com força demais.

Metal cai no chão.

Um carrinho bate na parede.

- Frequência despencando! - outra voz grita.

Eu avanço um passo, mas a porta não abre.

- Se ele parar, eu corto agora! - a médica ordena.

- Trinta segundos. - alguém grita.

- Não, menos.

- Prepara agora!

O alarme se mantém contínuo.

Sem pausa.

Sem batida.

Sem ritmo.

E eu só consigo pensar:

Se o coração dele parar, não existe escolha.

Só existe quem o corpo dela decidir poupar.

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