Cheguei tarde.
Não por atraso físico.
Por erro de cálculo.
Por acreditar que ainda havia margem.
O mundo costuma esperar quando eu ordeno.
O corpo dela não esperou.
O médico para no meio da frase.
Franze a testa.
Olha de novo para o monitor.
- Não... isso não estava assim agora.
Dou um passo à frente.
- O quê?
O som muda.
Não para.
Mas perde ritmo.
- A pressão dela está caindo - o médico diz, agora sem fôlego. - E o bebê respondeu.
O monitor emite um som mais grave, irregular.
Não é alarme ainda.
É pior, é um aviso.
A enfermeira já empurra a maca.
- Se isso continuar por mais alguns minutos, vamos ter que escolher - conclui o médico.
O chão some debaixo dos meus pés.
- Escolher o quê?
O médico não responde de imediato.
Só então diz:
- Se a pressão continuar caindo, posso perder os dois.
- Quero sala limpa agora. - digo.
Gente entra e sai. Luvas. Máscaras. Luzes mais fortes.
Lara está na maca, o corpo arqueado, suado, tremendo. Os olhos se perdem no teto e voltam. A mandíbula trava a cada onda que atravessa o ventre. Ela não grita sempre. Às vezes só prende o ar e aperta os dedos até os nós ficarem brancos.
Isso é pior.
- Segura a cabeça dela. - a médica diz para alguém.
Lílian obedece. Não chora. Não fala. Está pálida, mas inteira. É a única ali que ainda funciona sem protocolo.
- Quanto tempo? - pergunto.
- Não dá para prever.
- Resposta errada, doutor.
- Me dá opções.
Ele abre a boca. Fecha. Olha para a médica como quem pede permissão.
- O corpo dela entrou em exaustão. - a médica diz. - O bebê está em sofrimento, preciso iniciar a cesárea com urgência.
O monitor dá um salto.
Um número despenca.
A médica estica o braço e empurra o médico para fora do caminho.
- Não toca mais nela. Agora é comigo.
A enfermeira empalidece.
- Doutora... a frequência...
A médica não responde.
Só diz:
- Vamos iniciar o protocolo, não podemos perder o bebê.
O silêncio que se instala não é dúvida. É limite.
Olho para Lara. O abdômen endurece de novo, uma contração longa, profunda. Ela leva a mão entre as pernas sem perceber. Não é escolha. É reflexo.
- Não... - ela murmura.
Não tem saída.
Não tem controle.
Não tem nada.
- Prepara a sala cirúrgica. - digo.
A médica não se mexe.
- Eu já mandei. - ela responde. - Mas preciso ser clara. Ela respira fundo antes de continuar.
- Não por medo. Por ética.
- Essa decisão não cabe mais a você.
Não é desafio. É limite. Pela primeira vez alguém não recua diante do meu cargo, do meu nome ou da minha sombra. Ela só vê mãe e filho.
- O quê?
- Eu não vou esperar autorização enquanto a pressão cai e o feto sofre. - diz. - Se eu atrasar, eu respondo por homicídio. E não vou.
Não levanta a voz. Não treme. É pior assim.
Por um segundo, penso em impor. É um instinto antigo. Controle absoluto. O mundo sempre cedeu quando eu avancei um passo.
Olho para Lara de novo. O rosto contraído, os olhos úmidos, o corpo empurrando sem pedir. Ela não está aqui. Está dentro de algo que não para.
- Darlan... - ela chama, baixo. Não sei se é meu nome ou só um som. - Não deixa levarem o meu bebê...
Ela não pede proteção. Pede permanência. Não quer que eu salve, quer que eu fique. E isso desmonta tudo em mim.
Ela não fala como quem pede. Fala como quem se despede sem saber.
E isso me atinge mais do que qualquer arma apontada.
Não prometo nada.
- Eu estou aqui. - digo.
É a única coisa que ainda não me foi tirada.
A maca se move. Portas se abrem. Luz branca, o cheiro muda. Antisséptico. Metal.
Dou as ordens enquanto ando.
- Segurança total no perímetro. - falo no comunicador. - Ninguém entra sem minha autorização. Ninguém sai.
Confirmações chegam rápidas. Posicionamentos. Travas e silêncio operacional.
Puxo o telefone.
- Davi.
Ele atende na primeira chamada.
- Fala.
- Ela entrou em estado crítico. - digo. Sem rodeio. - Cesárea de emergência.
Silêncio do outro lado. Curto. Pesado.
- Onde você está? - ele pergunta.
Passo o endereço. Não repito. Ele anota na primeira.
- Avise o Marlon. - continuo. - Agora.
- Eu fico na contenção.
- Fica vivo.
Encerro.
A médica volta com a touca ajustada.
- Vamos iniciar a anestesia. - informa.
- O bebê? - pergunto.
Ela sustenta meu olhar e responde:
- Está vivo.
- É só o que posso afirmar agora.
Por enquanto é o máximo que existe.
Lara se mexe quando a anestesia começa a agir. Um reflexo de defesa. Lílian segura os ombros dela.
- Fica comigo. - Lílian pede, a voz quebrando pela primeira vez.
- Eu volto. - digo para Lara, baixo, perto do ouvido. - Eu não saio daqui.
Não sei se ela escuta.
Os olhos dela piscam lento. O corpo relaxa errado. O monitor muda de ritmo. Alguém xinga baixo. Outro ajusta algo rápido demais.
- Pressão caindo. - a médica avisa.
O mundo afunila. Portas se fecham na minha frente.
Fico do lado de fora.
Pela primeira vez, não posso entrar. Não posso intervir. Não posso decidir.
O relógio na parede não faz barulho. Mesmo assim, cada segundo pesa.
Ninguém me desafia quando a porta fecha. Não porque eu grite, mas porque não sobra espaço para erro. Eu não explico ordens, não justifico escolhas e não aviso antes de agir. Aqui dentro não existe acaso, destino ou piedade. Existe só o que eu deixo acontecer.
Penso no que não vi. No trajeto. Na falha. Na brecha mínima que virou tudo isso. Não adianta. O corpo dela não negocia com culpa.
Um enfermeiro passa correndo. Outro empurra um carrinho com instrumentos. Sangue em uma bandeja. Não sei se é para ela.
Encosto a mão na parede fria. Firme. Não é apoio. É limite.
Sempre controlei território e homens. Sempre soube quando avançar e quando parar.
Aqui, não.
Aqui, o inferno não pede permissão.
A porta continua fechada.
E tudo o que eu não posso controlar está do outro lado dela.
O monitor muda de som de novo.
Não é falha, é alarme.
A porta ainda está fechada quando a médica grita lá dentro:
- Bradicardia fetal!
O som estoura.
Não oscila.
Não avisa.
Um dos números despenca de uma vez só.
Alguém xinga.
Outro empurra o carrinho com força demais.
Metal cai no chão.
Um carrinho bate na parede.
- Frequência despencando! - outra voz grita.
Eu avanço um passo, mas a porta não abre.
- Se ele parar, eu corto agora! - a médica ordena.
- Trinta segundos. - alguém grita.
- Não, menos.
- Prepara agora!
O alarme se mantém contínuo.
Sem pausa.
Sem batida.
Sem ritmo.
E eu só consigo pensar:
Se o coração dele parar, não existe escolha.
Só existe quem o corpo dela decidir poupar.