Passos se aproximam, firmes, controlados e femininos.
Não correm e nem hesitam.
O tipo de passo de quem entra sabendo que manda.
Meu estômago afunda antes de eu ver.
- Então é aqui.
A voz vem limpa. Fria e sem pressa.
Forço os olhos para cima.
Danuza está em pé, intacta demais para aquele lugar. Roupa ajustada, cabelo preso, rosto arrumado. Não olha ao redor. Não avalia o espaço. Me olha direto. Como se eu fosse um problema que ela veio resolver.
- Olha só... - ela se aproxima devagar. - O meu grande prêmio.
Meu corpo tenta reagir. Não responde.
- Quem... - tento falar. Só ar.
Ela sorri. Um sorriso pequeno. Satisfeito.
- A gente se encontra de novo, Lara. - ela se agacha na minha frente. - Logo agora que você ficou... assim.
O olhar dela desce para minha barriga.
- Frágil. Inchada. Fora da proteção. - inclina a cabeça. - Exatamente como eu imaginei.
Minha mão vai para o ventre num reflexo inútil.
- Não toca... - a voz sai falhada. Pequena.
Ela ri.
- Já toca. - diz, simples. - Já decidi.
Se inclina mais.
- Esse bebê vai nascer aqui e você não vai estar lá quando ele aprender a falar.
Meu coração erra o ritmo.
- Não... - balanço a cabeça. - Não...
- Vai. - ela responde, calma. - Mas não fica. Vai sair do país. Outro nome. Outra história. Longe de você.
O mundo inclina.
- Você não pode... - a garganta fecha. - Ele é meu.
O sorriso dela some.
- Você ainda não entendeu.
A mão entra no meu cabelo de uma vez.
O puxão arranca um grito de dor. Minha cabeça é jogada para trás. A visão explode em branco.
- Não encosta nela! - Lílian se move.
Um homem surge atrás dela. Não toca. Só bloqueia.
Danuza segura meu rosto perto do dela, os dedos cravados no couro cabeludo.
- Eu esperei muito por isso. - a voz vibra, contida. - Esperei você cair.
O tapa vem rápido, o som estala antes da dor chegar.
Quando chega, queima. Não só na pele. Por dentro. Uma dor que humilha.
Meu corpo dobra.
- Para! - Lílian grita.
Eu choro. Não bonito. Não inteiro. Um choro baixo, falhado, que vaza sem controle. O ar não entra direito.
- Para de chorar. - Danuza rosna. - Guarda energia. Você vai precisar.
Ela levanta o pé.
Meu corpo antecipa o chute.
- DANUZA!
A voz corta o ar.
Outra mulher entra e não precisa gritar de novo.
- Você perdeu a cabeça? - Ela avança e segura o braço dela com força. - Já fizeram a merda de sequestrar a garota. Ela vai parir aqui, porra!
Danuza se solta, furiosa.
- Não se mete, Ane.
- Me meto sim. - Ane empurra ela para trás. - Enquanto essa mulher estiver viva, ela é problema meu.
Ouço tudo em pedaços.
- Foi o Henry... - Danuza cospe. - A ideia foi dele.
- Foi. - Ane confirma. - E ele deixou claro que não quer a Lara. Quer enfraquecer. Quer tomar a Sinclair enquanto eles sangram.
- Alguém sempre paga por querer mais do que pode. - Danuza rebate.
Meu sangue esfria.
- Quem quer ela é você. - Ane continua. - E esse bebê.
Silêncio.
- Pensa na sua filha, a Jayane. - Ane chega perto do rosto dela. - Pensa se você quer que sua filha saiba quem você é.
Danuza empalidece.
Ane a puxa pelo braço e arrasta para fora.
- Some daqui. Agora.
A porta bate.
O quarto gira.
Então vem, não como antes.
Vem rasgando.
Meu corpo se dobra sozinho. A contração me parte. Um grito explode de mim, alto, cru, sem controle.
- Lara! - Lílian cai ao meu lado, segura minha mão. - Aguenta!
Eu não aguento. Me encolho. O colchão recebe meu peso morto.
- Está vindo... - eu choro. - Está vindo...
Ane entra correndo.
- O que está acontecendo?
- Eu não sei! - Lílian grita. - Ela tá com muita dor!
Ane me olha. Sem desprezo. Sem curiosidade. Como quem reconhece perigo real.
- Levanta. Devagar.
Eu não consigo sozinha. Minhas pernas falham. Ane arranca minha roupa sem cerimônia.
- Chuveiro. Agora. Água quente ajuda a segurar.
A água cai forte. Minhas pernas tremem. Eu choro contra a parede.
- Não deixa levarem ele... - imploro. - Por favor...
Ane segura meu rosto.
- Eu não tenho poder pra prometer isso, eu sou só a mulher do chefe. - diz baixo. - Mas vou tentar.
O barulho vem primeiro.
Depois outro.
Depois muitos.
Tiros. Gritos. Fogos cortando o céu.
Ane me puxa de uma vez, me enrola numa toalha.
- É invasão! - ela grita. - Agora!
O pânico toma tudo.
Meu corpo contrai de novo. Mais baixo. Mais forte.
Lá fora é guerra.
Aqui dentro, é pior.
O pânico estoura dentro de mim.
A contração vem mais baixa. Mais pesada.
Algo quente escorre entre as minhas pernas.
Não é urina.
Não é suor.
Lílian e Ane olham.
O rosto de Ane muda antes de qualquer palavra.
- Lara... - a voz dela falha. - Tem sangue.
Meu corpo decidiu.
E ninguém perguntou se eu estava pronta.