Um homem surge armado atrás de um carro queimado. Não dá tempo de reação. Um tiro seco. Cabeça. Ele cai sem entender que morreu.
- Fogos em cinco... quatro... - Derick avisa.
- Continua. - digo.
Os fogos estouram no céu como alarme antigo. A favela acorda gritando guerra. Portas batem. Gente corre. Armas aparecem. Tarde demais.
- Contato múltiplo. - Davi diz.
- Eliminar. - respondo.
Fim da linha para eles.
Não é troca. É limpeza. Cada tiro tem destino. Cada corpo cai onde não atrapalha a subida. O chão cede sob os passos, mas ninguém desacelera.
- Casa alvo a cinquenta metros. - Derick. - O líder confirmado no interior.
Chegamos.
A porta da frente não existe depois do meu chute.
Ela cai inteira.
O barraco entra em silêncio por meio segundo. Depois, caos.
JS tenta alcançar a arma. Não chega. Dois homens o prendem no chão. Henry congela. Reconhece. Sempre reconhecem tarde demais.
- Amarra os dois. - ordeno. - Quero essas merdas vivas.
Eles obedecem.
Não olho mais para eles.
O grito vem do fundo da casa.
Não era medo.
Eu já ouvi medo demais na vida.
Aquilo era corpo se partindo.
E pela primeira vez em anos, não era um som que eu controlava.
Vou.
A porta do quarto cede no primeiro impacto.
Lara está no chão.
Nua. Suada. O corpo dobrado sobre si mesmo, gritando como se estivesse sendo rasgada por dentro. Sangue entre as pernas. Lílian ao lado, desesperada. Uma mulher tenta manter algum controle. Danuza está em pé, perto demais.
- É meu! - Danuza grita. - Esse bebê é meu!
A frase ecoa no quarto pequeno como uma sentença.
Meu coração erra o ritmo.
Não era só ele.
Era tudo que eu ainda achava que podia proteger no mundo.
Um homem atrás dela se move. Rápido demais. A mão estica na direção de Lara, dedos abertos, famintos.
Ele não termina o gesto.
O tiro é seco, curto e preciso.
O corpo bate na parede antes do som chegar completo. Sangue espirra. Massa. O homem desliza até o chão como algo que perdeu a função.
Silêncio absoluto.
Ninguém respira.
Uma mulher reage primeiro. Puxa Danuza pelo braço, afastando-a de Lara. Lílian se joga parcialmente sobre Lara, instinto puro, inútil contra o que eu sou.
O quarto treme.
Eu avanço.
Me ajoelho na frente dela.
Não toco, não ainda.
O corpo dela empurra sozinho.
Ela não está decidindo nada.
Sangue entre as pernas. A barriga dura como pedra. O corpo em colapso, contrações próximas demais umas das outras.
O tempo acabou.
- Olha pra mim. - digo baixo.
Ela demora. Quando consegue, os olhos estão perdidos, molhados, dilatados pela dor.
- Eu cheguei. - continuo. - Agora você respira comigo.
Ela tenta.
O grito de Lara explode no quarto quando a porta se fecha atrás de mim.
Não é o único som.
Passos descompassados no corredor. Correria errada. Gente fugindo.
E então Henry entra.
Não corre.
Mas também não para.
Fecha a porta atrás de si com força e gira o trinco. O rosto está molhado de suor. Os olhos se movem rápido demais. Ele já entendeu que perdeu.
- Espera. - diz. A voz sai firme demais para alguém cercado. - Isso saiu do controle.
Ele olha ao redor em segundos. Armas. Sangue. Gente que não é da Laje.
O cálculo fecha.
- Quem você é? - pergunta.
Não respondo.
Ele dá dois passos na minha direção.
- A gente pode resolver isso. - continua. - O resgate dobra. Triplica. Eu pago agora.
Lara grita atrás dele. Uma contração rasga o ar.
Henry engole seco.
- Eu não queria isso assim. - diz, rápido. - A ideia era pressão. Negócio. Não...
- Você mandou sequestrar uma mulher grávida. - corto.
Ele abre as mãos.
Danuza se mexe no canto.
- Cala a boca! - ele rosna para ela sem olhar. Depois volta para mim. - Você não sabe com quem está falando. Posso te pagar mais do que isso tudo aqui vale.
Dou um passo à frente.
Henry recua meio passo. Instinto, não escolha.
- Você não tem culhão pra contratar um mafioso. - digo. - Quanto mais um Lambertini.
O nome bate nele como um soco invisível, os olhos arregalam. O ar some.
- Espera... - a voz falha agora. - A gente pode...
Não termino de ouvir.
Seguro Henry pelo colarinho e o puxo para perto. Não há luta. Só surpresa.
Ele treme, mas não de medo.
De perceber tarde demais que não está negociando com alguém que precisa dele vivo.
- Você achou que podia brincar sem pagar o preço.
A lâmina entra abaixo das costelas. Um golpe limpo. Preciso. Gira.
O som que ele faz não é humano.
Sangue quente escorre pela minha mão. Ele tenta falar. Não consegue. Eu retiro a faca devagar e corto a garganta dele para terminar o serviço.
Henry cai aos meus pés.
Morto.
Danuza não fica desesperada.
Ela está calma demais para alguém que acabou de perder tudo.
Lílian engole em seco, o rosto branco como papel.
Lara grita de novo.
Outra contração.
Mais violenta.
- Mata eles! - alguém grita do fundo.
Eu me levanto.
Olho para Danuza.
- Todos. - começo a dizer.
- NÃO!
O grito de Lara me corta no meio da ordem.
- Por favor... - ela chora, sem ar. - Não faz nada com ela... com a Ane... ela foi a única que me ajudou... a única...
O quarto prende a respiração, eu olho para Ane. Ela não desvia. Não implora.
Depois olho para Danuza.
Quando ela sorri, eu decido.
Um passo, um soco.
O impacto é brutal. O som seco de osso quebrando. Danuza cai no chão cuspindo sangue e dente.
- Amarra. - ordeno. - Todos.
Eles obedecem.
Lara grita outra vez, o corpo dobrando, o mundo desabando dentro dela.
Eu volto para perto.
O sangue. O suor. O tempo acabando.
Olho para o quarto cheio de inimigos vivos.
O tempo acabou. O resto é consequência.
Outra contração a dobra inteira antes que eu consiga chegar até ela.
O corpo empurra sozinho.
E quando o tempo acaba, quem morre primeiro: a mãe... ou o bebê?