Minha visão falha nas bordas.
Uma contração vem antes que eu consiga me preparar. Não cresce. Não avisa. Só fecha.
Meu corpo se dobra sozinho nos braços de quem me carrega. O grito sai alto, cru demais. Rasga direto da garganta.
- Lara, olha para mim. - Lílian está do meu lado de novo. Não sei quando ela voltou. A mão dela treme quando segura a minha. - Olha pra mim, por favor.
Eu tento.
A cabeça pesa. O pescoço não sustenta. A visão vem aos pedaços, luz, sombra, movimento, tudo torto demais para virar imagem. Algo estoura por perto. Um som. Outro. Meu corpo reage antes de entender, os ombros encolhem sozinhos.
O ar entra curto. Sai errado.
Minhas mãos procuram apoio e não acham. Os dedos se fecham no vazio, depois em tecido, depois em nada. O tremor não para.
Algo se reorganiza dentro de mim.
Não é dor ainda.
É o corpo escolhendo por onde começar a me partir.
O som que sai de mim não vira palavra.
Meu ventre puxa para frente.
Desce.
Meu coração dispara rápido demais, descompassado. O suor escorre frio pela nuca. O estômago vira.
Não consigo formular uma pergunta.
- Não... - sussurro. - Não agora...
A palavra agora não significa mais nada.
Sinto quando me colocam dentro de algo, carro, van, blindado, não importa. O cheiro é metálico. Óleo. Ar-condicionado forte demais. Sinto calafrios violentos.
- Cinto de segurança. - alguém diz.
- Não dá tempo. - outra voz responde.
A porta bate e o motor arranca.
Por um segundo, acho que chamei alguém que não está aqui.
O movimento me atravessa como faca. Cada buraco na rua vira dor nova. Minhas pernas falham de novo. Os músculos cedem sem aviso. Meu corpo se dobra sozinho, tentando aliviar algo que não cede. O grito vem de novo, mais rouco, mais baixo. Já estou ficando sem voz.
- O sangramento está diminuindo. - Lílian diz, e dessa consigo sentir o alívio em sua voz.
- Eu sei. - a voz masculina responde. Fria. Controlada. - Continua monitorando.
Reconheço a voz antes de abrir os olhos.
Darlan.
Ele não pergunta como eu estou, não explica nada e nem diz para onde estamos indo.
Ele apenas dá ordens.
- Mantém a cabeça elevada. - diz. - Não deixa ela fechar os olhos.
Eu fecho mesmo assim. Por um segundo. Só um.
Quando abro, ele está ajoelhado à minha frente, segurando meu rosto com as duas mãos. O toque é firme, preciso, quase clínico. Os olhos dele não desviam dos meus.
- Fica comigo. - ele diz. Baixo. - Não agora.
A palavra agora volta. Pesada.
- Tá cedo demais... - tento dizer. - Tá vindo...
Minha voz quebra no meio.
Ele olha rápido para baixo. Para minhas pernas. Para o sangue que já manchou tudo. Não há surpresa no rosto dele. Só cálculo.
- Quanto tempo entre as contrações? - pergunta para alguém fora do meu campo de visão.
- Menos de dois minutos. - respondem.
O maxilar dele trava por um segundo. Só um. É quase nada. Mas eu vejo.
Uma fissura.
O carro acelera.
O caminho não presto atenção. Só sinto as curvas longas, portões abrindo, descidas profundas demais para a cidade que eu conheço.
- Onde a gente tá indo? - pergunto.
Ninguém responde.
- Darlan... - tento de novo. - Onde o meu filho vai nascer?
Por um segundo, vejo o quarto que eu montei. Claro. Silencioso. Marlon rindo nervoso, ajeitando coisas que não precisavam ser ajeitadas.
Some tudo quando outra contração vem.
Nada do que eu planejei sobreviveu ao meu corpo.
A pergunta sai torta. Antecipada. Desesperada.
Ele não responde de imediato.
- Respira. - diz apenas. - Agora não pensa nisso.
Outra contração corta o resto da frase. Dessa vez eu sinto algo diferente. Um peso descendo. Um empurrão interno que não vem de mim. Meu corpo começa a fazer força sozinho.
- Não... - choro. - Eu não tô controlando...
- Eu sei. - ele responde, e dessa vez há algo diferente na voz. Não é suavidade. É reconhecimento. - Ele não vai esperar.
O jeito que ele diz isso não é de médico.
É de alguém que já perdeu o direito de pedir tempo ao mundo.
As palavras batem errado.
O choro vem rasgando, não consigo me segurar, o corpo treme de medo, dor e desespero.
O silêncio que vem depois é pior que qualquer resposta.
O carro diminui. Para. Portões fecham atrás de nós com um som pesado demais para ser hospital. Quando me tiram de novo, sinto o ar mudar. Mais frio. Mais limpo. Silêncio demais.
Tudo com muita agilidade.
Nenhum corredor branco cheio de gente.
- Isso não é hospital... - murmuro.
- Não é hospital convencional. - Darlan responde. - Anda.
Minhas pernas não andam.
Sou carregada de novo. O teto passa rápido demais. Luzes embutidas. Portas grossas. Gente de preto. Gente armada.
- Onde está a Danuza? - pergunto de repente. O nome sai sozinho.
O silêncio em torno dela pesa mais do que qualquer confirmação.
O mistério em torno dela não é confusão.
É decisão.
Sou colocada em uma maca. Mãos aparecem, cortam o tecido que cobre o meu corpo, sem delicadeza. Sinto o ar gelado na pele molhada. O sangue escorre livre agora. Alguém pragueja baixo.
O silêncio antes dela chegar pesa mais que os tiros de antes.
Guerra eu sobrevivi.
Parto eu não controlo.
Uma mulher vestida de branco calça luvas, e se aproxima, fala algo, mas já não compreendo, logo sinto seus dedos invadindo o meu interior.
- Dilatação avançada. - ela diz. - Não há condições de esperar mais.
- Quanto tempo? - Darlan pergunta.
- Não dá para prever. Pode ser agora. Pode ser em minutos.
Minutos.
Minha cabeça gira.
- Eu não sinto as pernas... - digo. - Tá tudo tremendo...
- Ele está passando do limite. - a médica responde, rápida demais. - Fica aqui.
Outra contração vem antes que eu consiga responder. Mais forte. Mais profunda. Sinto algo ceder por dentro. Um rasgo quente. Um estalo que não dói, mas assusta.
- Lara... - Lílian sussurra. A bolsa rompeu.
O mundo fica distante.
- Ele tá vivo? - pergunto, já sem saber se falo em voz alta ou só penso. - Alguém sabe se ele tá vivo?
Não é só vida.
É tudo que eu ainda acho que eu ainda tenho nesse caos.
Ninguém responde.
Darlan está ali. Eu sinto. Mesmo sem ver. O silêncio dele pesa mais do que qualquer palavra.
Meu corpo empurra de novo, mais forte, mais baixo. Não é escolha. É ordem.
O ar não entra.
O teto se desfaz em pontos brancos.
Ele se mexe quando eu já não consigo reagir.
E a única coisa que atravessa tudo, cruel, inevitável, sem piedade nenhuma, é a pergunta que ninguém responde:
Se meu corpo está pronto para morrer por ele... o dele está forte o suficiente para viver sem mim?