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Capítulo 2 Bonito, mas cego

A cabeça de Nicole estava a mil enquanto ela rapidamente agarrava a arma.

Embora tivesse tentado usar o casamento com Connor para enfrentar a família do tio, isso parecia menos uma união e mais um acordo obscuro. Com medo pela própria segurança, ela tinha se armado, mas o segredo veio à tona muito antes do previsto.

Pelo menos havia um consolo - Connor estava preso a uma cadeira de rodas e, segundo os boatos, era completamente cego. Para tirar a prova, Nicole arriscou perguntar com cautela: "Você não consegue ver nada mesmo?"

Connor respondeu sem rodeios: "Não."

O alívio relaxou o peito dela, mas seus dedos apertaram ainda mais a arma, mantendo o cano apontado para ele por puro instinto.

Connor soltou uma risada interna de escárnio. A vontade era avisar que a etiqueta de preço ainda estava pendurada na arma de brinquedo dela, mas a inocência escancarada de Nicole acabou sendo conveniente, poupando-o do trabalho de investigar mais a fundo.

Sem qualquer interesse em interagir com ela, Connor apertou o controle da sua cadeira de rodas e se virou.

"Está tarde. Faça o que quiser, só não me toque ou interfira no meu espaço", disse ele friamente.

Nicole ficou sem entender nada. Ele não ia conferir se ela era virgem? Por que largou o assunto do nada? Será que isso significava que ele aceitava o casamento?

Essas perguntas se amontoaram na sua mente, mas ela as engoliu. Todos diziam que Connor tinha um temperamento explosivo, e que uma palavra errada poderia fazer com que ele quebrasse o pescoço de alguém sem aviso. No fim, o silêncio parecia a opção mais segura - quanto menos falasse, maior a chance de sobreviver.

Com cuidado, ela se levantou da cama e sussurrou: "Você tem dificuldade de se mover. Pode ficar com a cama, eu me viro no chão com uns cobertores."

"Não precisa." Assim que respondeu, Connor fechou os olhos novamente, com uma expressão fechada como uma porta trancada.

O olhar de Nicole percorreu o quarto. Apesar do luxo aparente, o lugar tinha ar de abandono, sem aquele calor de um lar habitado, e nem sequer um aquecedor decente para espantar o frio.

Puxando o cobertor sobre os ombros, Nicole se sentou ao lado da cama, se forçando a ficar acordada e vigilante. Mas, conforme as horas passavam, o frio penetrava cada vez mais nos seus ossos.

Ela olhou para a figura imóvel de Connor na cadeira de rodas e uma pontada de preocupação surgiu - nesse estado, ele devia estar sofrendo mais do que ela.

Após um momento de hesitação, ela se levantou silenciosamente e colocou o cobertor sobre ele com cuidado.

Foi então que os olhos de Connor se abriram.

Pega de surpresa, Nicole congelou sob o olhar dele, só então percebendo o quão incomuns eram os olhos dele - castanhos profundos com um tom azulado, claros, mas insondáveis, carregando uma autoridade natural.

Sua respiração falhou por um instante antes de ela gaguejar, com a voz baixa e tensa: "De-desculpe, não queria te acordar. Só achei que você poderia estar com frio."

Anos de treinamento rigoroso ensinaram Connor a ignorar o desconforto, inclusive o frio intenso. "Se te assustei tanto, por que não vai embora?"

Se ela fosse embora como as outras haviam feito antes dela, o acordo de casamento seria desfeito imediatamente.

Nicole conteve o nervosismo e perguntou: "Como sabe que estou com medo?"

Mesmo tentando disfarçar, a dúvida estava estampada na cara dela. Com olhos tão bonitos e focados, como ele podia ser cego?

Connor mal reagiu, sua voz firme ao apontar: "Suas mãos estão tremendo."

Nicole travou e baixou o olhar, percebendo só agora como seus dedos tremiam contra a palma da mão dele, num espasmo nervoso incontrolável. O rosto dela pegou fogo, e ela recolheu a mão na hora, mordendo os lábios de vergonha.

"Meus pais morreram. Não há ninguém para me defender. Se não tivesse me casado com você, teria sido obrigada a aceitar qualquer outro. Tanto faz com quem eu fico, e para você também não deve fazer diferença. Então não há sentido em considerar outra pessoa", ela disse em voz baixa.

Connor não acreditou em uma palavra sequer, mas não se deu ao trabalho de contestá-la. Para ele, num mundo já tão caótico, trocar de parceira era realmente inútil.

Chegando a essa conclusão, ele fechou os olhos mais uma vez, encerrando o assunto.

Nicole não conseguia entendê-lo de jeito nenhum, mas um instinto silencioso lhe dizia que ela havia passado no teste dele de alguma forma.

Após um breve momento de hesitação, ela se aproximou, erguendo a mão e a acenando cautelosamente diante do rosto dele. Será que ele realmente não conseguia ver?

Criando coragem, Nicole fechou o punho e deu um soco falso na direção dele.

Mesmo assim, nem um lampejo de reação cruzou o rosto de Connor.

Um suspiro lento escapou dos pulmões dela à medida que a tensão se dissipava, embora sentisse uma pontada de compaixão. Com um rosto desses, se não fosse deficiente, a vida teria sido muito mais gentil com ele.

...

O dia amanheceu sem grandes surpresas. Ao contrário dos boatos escandalosos, Connor parecia muito menos assustador pessoalmente, e o casamento tinha sido oficializado de forma discreta.

Já que não havia mais volta, Nicole decidiu não hesitar, deixando o desconforto de lado para explorar a casa.

Havia poeira em todo canto, e os móveis, velhos e malcuidados, mal serviam para uso. A geladeira estava entupida de comida pronta e barata, o tipo de coisa que Connor devia comer todos os dias.

Ela soltou um suspiro. Se família Reed desprezava tanto o filho bastardo, por que não acabavam logo com isso? Em vez disso, deixavam Connor largado ali, numa vida sem conforto nem liberdade, apenas uma miséria desgastante.

Com paciência, ela separou o que ainda prestava e começou a preparar o café da manhã.

No andar de cima, escondido atrás das telas, Connor observava cada movimento dela pelas câmeras de segurança.

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