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Capítulo 3 Está gostando

Samuel Adams, assistente de Connor, aproximou-se por trás e colocou um fino dossiê sobre Nicole na mão dele, o leve farfalhar do papel quebrando o silêncio.

Com um gesto de descaso, Connor folheou o conteúdo, mantendo a expressão inalterada a cada página virada. O arquivo detalhava uma vida comum e sem graça, sem qualquer privilégio ou luxo, o que não despertou muito seu interesse.

"Então ela mal sabe como o mundo funciona. De onde ela tirou coragem para se casar comigo?", perguntou Connor com indiferença, mas logo seu tom ficou mais sério. "O que ela passou antes desse casamento?"

Samuel já esperava por essa pergunta e respondeu sem hesitar: "A mãe dela faleceu."

Connor franziu a testa de leve. "Só isso?"

"O pai morreu há anos e a mãe vivia doente desde então. O ex-namorado, Jerald Nash, era o médico responsável pela mãe." Samuel hesitou um pouco, esfregando a ponta do nariz antes de completar: "A mãe morreu alguns dias atrás porque o tratamento foi adiado. Correm boatos de que, na hora da emergência, Jerald estava na cama com a prima de Nicole em vez de correr para o hospital, e que ele preferiu não atender à ligação de emergência."

Ao ouvir isso, um canto da boca de Connor se ergueu, e um som baixo e divertido escapou dele.

Percebendo o interesse de Connor por Nicole - por mais lamentável que fosse a situação dela - Samuel não pôde deixar de perguntar: "Senhor Reed, pretende ficar com ela?"

"Ficar com ela é mais seguro do que deixar os olhos da família Reed me vigiando o tempo todo. Além do mais, ela não é lá muito esperta", respondeu Connor, com sua habitual indiferença.

O olhar de Samuel desviou para a arma sobre a mesa, e ele franziu a testa, confuso. "Você chama isso de não ser muito esperta? Quem traz uma arma logo no primeiro encontro?"

Connor encarou Samuel por um instante antes de mudar de assunto: "Você parece cansado. Não dormiu nada noite passada?"

Com uma seriedade rígida, Samuel respondeu: "Meu trabalho é te manter seguro, vinte e quatro horas por dia."

Connor dispensou o comentário com uma indiferença preguiçosa. "Vá descansar e fumar um pouco. Não quero que você se mate de trabalhar."

Enquanto falava, ele estendeu um cigarro para Samuel.

Samuel hesitou, a tentação estampada no seu rosto. Trabalhar com Connor não era diferente de cumprir pena - havia regras em todo lugar, e fumar era praticamente proibido.

Com a chance bem diante de si, ele acabou cedendo e pegou o cigarro.

Connor ergueu a arma de brinquedo, a acionou uma vez e, com um clique nítido, acendeu o cigarro de Samuel.

Por um instante, Samuel ficou parado, atordoado em silêncio.

Droga! Essa suposta arma não passava de um isqueiro? Ele havia sido completamente enganado!

Samuel deu uma tragada lenta e depois soltou a fumaça com uma risada torta quando Connor perguntou sem rodeios: "Está gostando?"

"Bastante."

"Meus parabéns. Você acabou de queimar seu bônus de fim de ano."

Samuel apagou o cigarro no cinzeiro às pressas, sua voz embargada pelo protesto: "Senhor Reed, foi o senhor quem me deu!"

A expressão de Connor permaneceu inalterada. "Nunca disse que não haveria consequências."

Resmungando baixo, Samuel sentiu uma velha pontada de arrependimento. Mais uma vez, tinha caído na armadilha de Connor, sendo enganado dia após dia sem nunca aprender.

Quando Nicole chegou com o café da manhã, Samuel já tinha saído, levando com ele o cheiro de fumaça que Connor detestava.

Parando ao lado da mesa, ela disse em voz baixa: "Não sabia do que você gostava e não tinha muita opção, então preparei isso. Experimente e veja se te agrada."

Ela pousou a bandeja com cuidado e arrumou os talheres perto dele.

O olhar de Connor desceu para as mãos dela - vermelhas, um pouco rachadas e ásperas demais para uma jovem dessa idade. Apesar da reputação impecável da família Perry e de sua fortuna, a forma como ela era tratada em casa ficava evidente nessas marcas.

Sem mover um músculo, ele comentou: "Não precisava ter se incomodado. Não costumo tomar café da manhã."

Uma teimosia silenciosa se instalou na expressão de Nicole ao responder: "Ficar sem comer faz mal ao estômago. Essas coisas industrializadas que você come não são comida de verdade. Vou preparar algo saudável para você."

Ela se sentou à frente dele e começou a comer sua parte, acrescentando logo depois: "Já que estamos casados, cuidar de você faz parte do acordo."

Num mundo obcecado por status e aparências, a maioria das pessoas escondia suas fraquezas sob camadas de cautela, com medo de serem desprezadas. No entanto, Nicole parecia estranhamente imune a esse instinto, sua sinceridade direta se destacando como algo fora do comum.

Infelizmente, isso não despertou nenhum afeto em Connor.

Antes que ela pudesse continuar, ele a cortou com frieza:"Pense no preço antes de se esforçar tanto. Não espere gratidão de mim."

Um brilho de pena cruzou o olhar de Nicole enquanto o observava. De repente, ela pensou que esse homem não conseguia nem aceitar a gentileza sem se preparar para uma armadilha - o que quer que ele tivesse passado devia ter sido brutal.

Percebendo a expressão dela e lendo seus pensamentos, os lábios de Connor se contraíram num movimento mínimo, mas ele ficou calado.

Quando Nicole terminou de comer, notou que Connor não havia tocado na comida, então perguntou cautelosa: "Não gostou?"

Comer a comida dela parecia um risco que ele se recusava a correr. Com sua indiferença habitual, respondeu: "Nunca comi nada tão bom antes. Não estou acostumado."

Uma dor surda apertou o peito de Nicole, que disse gentilmente: "Então vou preparar o café para você todos os dias, se não se importar."

Encontrando o olhar aberto e sincero dela, Connor sentiu algo dentro de si se agitar, como se ele fosse um cão de rua desamparado que finalmente recebeu uma mão amiga.

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