Ellis olhava o retrato de Owen enquanto desenhava os traços na tela. Esperava que seu bebê se parecesse com ele, pensou enquanto sorria. Os olhos acinzentados, lábios grossos e delineados, rosto quadrado e com cachos nos cabelos negros. A barriga de quatro meses já começara a crescer, faria sua ultrassonografia na semana seguinte e finalmente descobriria se teriam um menino ou uma menina.
Olhou para o lado de fora ao ouvir uma ambulância passar. Aquela avenida era bem movimentada de dia, carros e pessoas iam e vinham. Lanchonetes, lojas e restaurantes garantiam o movimento durante todo o dia, mas a noite o lugar ficava bem esquisito. Prometeu a Owen que não sairia tarde do ateliê.
Suspirou ao se lembrar de como ele estava chateado com a repercussão sobre o tiroteio contra o hotel. Depois disso vários hóspedes se transferiram para outros hotéis alegando que o Shangri-La não era seguro. Os planos para os restaurantes e cassino do hotel também foram por água abaixo, assustados os clientes procuravam outros lugares para fazer suas refeições e se divertir. Hoje Owen estava participando de uma reunião com os outros administradores e o pessoal de marketing da empresa para pensar em uma solução.
Ellis virou-se novamente para a tela com seu carvão em mãos e concentrada continuou, mas parou ao sentir algo estranho às suas costas. Virou-se lentamente e não tinha ninguém. Olhou rapidamente para o lado de fora pela vitrine de seu ateliê, tudo parecia normal. Suspirou, talvez estivesse ansiosa depois de tudo que aconteceu na última semana. Virou-se novamente e continuou, mas a sensação estranha não a abandonava. Era como se estivesse sendo observada novamente. O alerta de perigo veio em forma de arrepio e olhou novamente pela vitrine, dessa vez atendo-se aos transeuntes. Nada parecia anormal, então por que se sentia ameaçada?
Levou seu cavalete para o fundo do ateliê, longe dos olhares de qualquer pessoa. Ligou o som no seu celular e relaxou. Distraída olhou em direção a porta e o rosto conhecido estava lá sorrindo para ela e lhe observando. Se sentiu uma péssima pessoa ao sentir incômodo com a presença do cliente, mas havia algo nele que ela não gostava nem um pouco.
Abriu a porta sorrindo levemente.
- Como vai? - perguntou enquanto dava passagem para o homem que havia conhecido a mais ou menos uma semana, Dixon Miller.
- Boa tarde, vou muito bem! - respondeu vendo a expressão estranha no rosto dela. Será que Owen havia finalmente contato sobre eles? - Me desculpe por não ter vindo no dia seguinte, mas meu trabalho ààs vezes exige muito de mim. Cheguei em uma hora inapropriada?
- Não, de forma alguma! Eu só estava criando alguns esboços.
- Certo! Trouxe a foto que lhe disse, assim você poderia analisar e me dizer o valor com precisão.
- Claro! - concordou.
Ellis assistiu o homem abrir uma pequena agenda e tirar uma fotografia. Menos mau que era uma paisagem, se fosse a imagem de uma pessoa seria monótono criar por foto. Dixon entregou-a explicando:
- Essa era a casa onde eu morava quando criança.
Ellis observou a casa simples, mas que possuía uma bela paisagem ao redor. Atrás, várias montanhas cobertas de gelo e a frente da casa um jardim de gardênias. Dava para ver um rio ao lado da pequena construção.
- Nossa! Que lindo. Você deve ter tido uma infância maravilhosa morando em um lugar como esse.
Dixon apenas sorriu.
- E então, por quanto você faria esse trabalho para mim?
Ellis disse o valor.
- Está ótimo! Já estou ansioso para colocá-lo na minha sala.
- Vou precisar do seu telefone para assim que estiver pronto eu entrar em contato.
Minutos depois Dixon saia do ateliê agradecendo educadamente.
- Muito obrigado. Essa imagem é a única lembrança que tenho da minha infância e significa muito para mim.
- Espero que meu trabalho corresponda as suas expectativas.
- Tenho certeza que sim!
***
- Ellis, vou precisar viajar na próxima semana. Você quer vir comigo? - convidava Owen durante o jantar.
- Aonde vai?
- Ao México! Fiz uma troca com Philip, ele vai a reunião geral da empresa no Japão, enquanto eu vou supervisionar o andamento do projeto de um novo resort.
- Japão parece bem legal!
- Sim é, mas como você está grávida não quis ir para um lugar tão longe, sem falar que eu teria que permanecer lá por mais de uma semana.
- Não posso ir com você, tenho muito trabalho essa semana. Recebi três pedidos de telas hoje. Meus primeiros clientes em Vancouver.
- Sério? Que ótimo, querida. Fico muito feliz por você. - Beijou o rosto dela. - Os primeiros de muitos.
- Amém!
- E o que vai pintar?
- Um retrato e duas paisagens. Uma em particular me chamou muita atenção. Um lugarzinho que eu não diria que poderia ser real. Uma casa com um lindo jardim de gardênias, em meio as montanhas e com um rio ao lado.
- Deve ser realmente muito bonito.
- Sim, é. Quando ficar pronto eu te mostro a pintura e a foto.
- Estou ansioso! - Sorriu e mudou de assunto. - Como você gostaria que celebraremos o nosso casamento?
As sobrancelhas arqueadas mostravam toda a surpresa dela com aquela pergunta.
- Pensei que você quisesse esperar algum tempo...
- E quero, mas também gostaria de saber o que se passa na sua cabeça para me preparar.
Ellis sorriu divertida.
- Bem, nada muito extravagante. - Deu de ombros. - Uma igreja, um vestido branco, poucos convidados. Algo íntimo e só nosso.
- Parece bom para mim. Nada de alienígenas, nem bandas de rock zumbis... Você é realmente uma mulher de bom senso.
Ellis riu com gosto.
- Bem, se você quiser casar no Halloween acho a ideia dos zumbis muito apropriada.
Foi a vez de Owen mostrar o quanto se divertia com o bom humor dela. Ter Ellis ao seu lado era um presente, ela era tão suave e tranquila.
- Owen... - iniciou um pouco insegura com a pergunta que faria. - Como foi a festa do seu primeiro casamento?
- Não tivemos festa só uma reunião de amigos. Não éramos casados de verdade. Fomos morar juntos e só.
- Quer dizer que você tem essa mania de ser rápido com tudo?
- Meu casamento foi rápido, mas minha relação demorou muito para acontecer. Diferente de nós dois - esclareceu. - Mas no geral, não gosto de indecisão, acredito que quanto mais avaliamos uma situação, mais confusos ficamos a respeito dela. Prefiro dar um passo à frente e ver o que acontece.
- Espero que nosso relacionamento seja diferente, fomos rápidos no "namoro", mas não quero que nosso casamento seja assim.
- São situações completamente distintas, acredite. Você é diferente, eu sou um homem diferente agora e também temos uma situação bem diferente em nossas mãos. - Alisou o ventre dela. - Nossa relação é muito importante para mim, pois tudo me é novo. Estou aprendendo a cada dia com você.
***
Owen conversava com o irmão ao telefone, Liam tinha ligado para lhe avisar que Dixon havia falado com ele sobre a última conversa que tiveram.
- Eu disse a você que ele estava instável emocionalmente. Precisa ter cuidado Owen, pessoas amarguradas como ele são capazes de coisas muito ruins.
- Sabemos que ele gosta de fazer chantagem e de se vitimizar nas situações em que não pode controlar.
- Exato! E se ele não puder controlar, vai encontrar uma situação para dissolver o problema, é aí que mora o perigo.
- Me surpreende o fato dele pedir ajuda a você para me fazer mudar de ideia. Por que acha que você faria isso?
- Por que sou o único que entendeu você e ele no início, o único que os apoiou. Por isso ele acredita que eu possa influenciar você.
- É um louco.
- O importante é que você conseguiu sair dessa relação doentia, Owen. Mas Dixon acredita ter posse sobre você.
Owen suspirou.
- Essa relação foi um erro.
- Não se culpe e não se amargure, você agora é um novo homem. Tem uma pessoa linda e companheira ao lado, em breve será pai, tudo isso deve ficar para trás.
- Estou tentando deixar para trás, mas ele vive infernizando a minha vida... Mas tudo bem, uma hora ou outra ele terá que entender. Semana que vem estarei no México - mudou de assunto. - Gostaria de levar Ellis comigo, mas ela não poderá vir junto. Como você trabalha aqui perto, poderia, por favor, passar de vez em quando por aqui? Ficaria mais tranquilo sabendo que tem alguém de olho nela.
- Com certeza, vá tranquilo. Será um prazer!