Dixon entrou em uma sala vazia do hospital em que trabalhava, sentou-se em uma cadeira apoiando a cabeça entre as mãos. Havia acabado de perder um paciente e ele não costumava perder ninguém, era um excelente neurocirurgião e não admitia falhas, nem em si mesmo e nem em sua equipe. Como pôde se distrair em um momento tão importante? Sempre foi focado e exigente consigo mesmo, erros não podiam acontecer em seu trabalho.
Não foi o primeiro a morrer em suas mãos, mas os outros pacientes estavam em estado muito grave, diferente deste, onde as chances de sobrevivência eram altas.
Arrancou a touca e jogou-a no chão.
Tudo isso era culpa de Owen, ele estava afetando sua vida profissional com aquela vingança. Sim, era uma vingança, o que mais poderia ser? Owen nunca entendeu o quanto ele o amava e como tentava ajudá-lo a ser alguém melhor, a ter sucesso em tudo o que fazia. Queria que prosperasse ao seu lado e sabia que só seguindo suas ideias e conselhos ele conseguiria chegar longe.
Quando o conheceu ele era apenas um estudante na universidade de Vancouver, vivia desperdiçando a vida com bebidas e festas. Seus amigos eram da pior qualidade, vários arruaceiros que estavam na universidade apenas para agradar aos pais. Ele o transformou em um homem, em um profissional. Owen era gerente de Marketing e Eventos de uma das maiores cadeias de hotéis e resorts do mundo por influência sua, e mesmo depois de tudo que fez, ele tinha lhe abandonado. Colocado um fim em um casamento de oito anos e por quê? Por incentivá-lo demais a ser alguém independente e influente no meio administrativo.
Não ficou tão surpreso quando ele lhe disse que não poderiam continuar, sabia que Owen estava interessado em outra pessoa, sempre soube que ele lhe traia, discutiam algumas vezes por essas traições, mas nunca conseguiu prová-las. Owen tinha contato com muitas pessoas todos os dias, qualquer um poderia se passar como cliente do hotel. De toda forma nunca o imaginou com uma mulher. Não pensou que teria uma rival, muito menos que Owen a engravidasse. Estava mais do que claro que ele queria atingi-lo, destruí-lo, pois durante todos esses anos o pediu para adotarem uma criança. Sonhava em ser pai, em ter uma família completa, porém Owen sempre rechaçou essa ideia.
Não conseguia se conformar com aquela situação, não poderia admitir. Desde que se separaram nutriu a esperança de que ele voltaria para seus braços. Owen só precisava de um tempo para pensar, afinal eram oito anos juntos. Deu espaço a ele para que pensasse melhor, mas foi um erro, a cada dia ele colocava uma distância a mais entre eles e o estava deixando louco com isso.
Owen não podia trocá-lo por outra pessoa, ele era seu. Não permitiria que nada e nem ninguém se colocasse entre eles.
***
- Está pronta, senhorita Hill?
- Quase! - respondeu Ellis do banheiro do quarto de casal. - Esse vestido não está fechando, acho que engordei.
Owen sentado na cama riu divertido. Ela saiu do banheiro.
- Preciso de ajuda com esse zíper.
Ele parou de respirar a olhando boquiaberto de cima a baixo. Ellis usava um vestido longo na cor verde-escuro que delineava seu corpo com perfeição. Uma abertura em cada lateral deixava as pernas à mostra e, até ele que não se considerava ciumento, sentiu vontade de fechar aquelas aberturas. Um coque charmoso nos cabelos loiros e algumas mechas soltas a deixaram muito mais sexy. O rosto estava lindamente maquiado e o sorriso que ela lhe lançava vendo a perplexidade dele fez seu corpo reagir instantaneamente.
- Olho para você e a única imagem que vem na minha cabeça é de uma cama.
- Deixe de ser bobo e me ajude.
Ele levantou-se e fechou o zíper nas costas dela olhando o decote meia taça a frente. Beijou o pescoço dela sensualmente sentindo o perfume levemente adocicado.
- Será a mulher mais linda de todo o Shangri-La.
- E você o homem mais lindo de toda Vancouver.
Virou-a de frente e olhando-a nos olhos perguntou:
- Seria cedo demais para eu dizer que te amo?
Ellis sorriu emocionada.
- Nunca é cedo demais ou tarde demais para dizer o que sentimos - respondeu.
- Eu te amo, Ellis - suspirou. - A cada dia estou mais apaixonado por você. A forma como você me trata, me entende, me respeita... Nunca tive algo assim antes. Nunca tive uma pessoa que quando eu chegasse em casa me desse um beijo de boas-vindas e que perguntasse como foi o meu dia. Que me olhasse com carinho e confiança. Fico tão ansioso para chegar em casa e sentir o seu abraço.
- Estarei sempre aqui com todo amor do mundo para te dar, Owen. Eu também te amo e te admiro pelo homem que é. Decidido, honesto e tão amoroso. Eu também nunca tive alguém assim.
Beijaram-se de forma apaixonada até Ellis se afastar.
- Só mais um minuto e estarei pronta. Preciso retocar o batom que você tirou.
Owen sentou-se novamente.
- E vou tirar novamente, muitas vezes essa noite.
***
Chegaram ao restaurante do hotel e foram levados a mesa reservada. Aquela noite teriam uma apresentação de Jazz e Owen decidiu levar Ellis para se divertir um pouco. Logo Philip e Brandon se juntaram a ele com suas respectivas acompanhantes. Philip acompanhado da esposa e Brandon de uma jovem muito bonita.
Jantaram desfrutando de conversas muito agradáveis e divertidas. Os funcionários do hotel e do restaurante não tiravam os olhos de Ellis, principalmente quando ela sentou-se ao seu lado, porém de frente para o palco. De pernas cruzadas deixava a abertura lateral do vestido exibir suas pernas sensualmente. Owen não podia deixar de sentir-se orgulhoso por ter aquela belíssima mulher ao seu lado. O que as pessoas ali não sabiam era que além de bela por fora, sua Ellis também era bela por dentro. Não exagerou quando confessou que estava a cada dia mais apaixonado. Ela causava um efeito maravilhoso dentro dele, se sentia em paz. Finalmente em paz.
Não aguentava mais viver sob ameaças e desconfianças, não merecia ser tratado como um homem leviano e sem escrúpulos. Os oito anos ao lado de Dixon foram sufocantes, só agora ele conseguia ver. Perguntava-se como conseguira aguentar tanto tempo. A forma como ele lhe manipulava chegava a ser criminosa. Perdeu as contas de quantas vezes saiu de casa para dormir fora por não aguentar os ataques de ciúmes e as críticas agressivas que ele lhe fazia.
Sentiu as mãos delicadas sobre as suas e o olhar apaixonado encontrar o seu.
- Vamos dançar! - convidou-o ela.
Owen beijou a mão de Ellis e levantou-se a levando para o salão, a música romântica tocava enquanto eles deslizavam no centro do restaurante. O primeiro e até então único casal a ter coragem de iniciar a dança da noite chamava atenção pela beleza e elegância.
Ellis admirava a beleza do homem que a segurava com carinho. Os cachos estavam completamente domados e penteados para trás, a barba bem feita e o terno elegante lhe davam um ar de seriedade e poder. Owen tinha o olhar mais sensual que já vira em um homem e se orgulhava ao vê-lo chamar a atenção das pessoas ao seu redor. Sabia o que elas estavam sentindo, o mesmo fascínio que ele a fez sentir quando se conheceram.
Outros casais se juntaram a eles, primeiro Philip e a esposa, depois Brandon e a acompanhante. Logo os convidados também dançavam e se divertiam. O lugar estava cheio, a propaganda que haviam planejado havia surtido o efeito esperado e soube que já estavam com quase setenta por cento dos quartos reservados para pernoite.
Brindou junto aos amigos comemorando o bom desempenho da empresa. Diferente do que Dixon tentava lhe fazer acreditar, o sucesso vinha para aqueles que abriam espaço para outros crescerem juntos. Não teria conseguido sem Philip, Brandon e todos os funcionários do Shangri-La. Estava grato e feliz por ter uma equipe unida e empenhada.
***
Do lado de fora do hotel Owen aguardava o seu carro ao lado de Ellis. Abraçados, não faziam questão de esconder o quão apaixonados estavam. Trocavam beijos e carinhos a todo tempo. O chofer do hotel avisou que demoraria um pouco, pois a demanda estava grande aquela noite.
- Não se preocupe, Xerife. Eu aguardo - Owen gritou para o homem de meia idade que sorria para Ellis o tempo todo. Era inegável que todos a estavam achando linda. E ela era mesmo.
- Xerife? - perguntou em um sussurro.
- Sim, é um apelido carinhoso que demos a ele.
Ellis sorriu divertida com a brincadeira.
- Owen! - chamou-o Philip de dentro do hotel.
- Vá, vou ficar bem aqui, afinal estou com o Xerife de Vancouver - brincou ela divertindo-o.
Owen entrou e parada no alto da escada ela observava a rua, vendo algumas pessoas saírem do hotel e entrarem em seus carros, outras assim como ela, esperavam um pouco mais. De repente teve a sensação de estar sendo observada. Olhou para os lados e para as pessoas a sua frente, porém não havia ninguém a olhando naquele momento. Sentiu uma onda de insegurança percorrer seu corpo e um calafrio atingir sua espinha como se houvesse perigo eminente ali. Seu incômodo foi tanto e de tal modo que decidiu entrar no hotel novamente.
Ainda atravessava a porta quando um disparo de arma de fogo foi ouvido e o vidro da porta ao lado da que ela atravessava e onde estava parada há segundos atrás se espatifou caindo em pequenos pedaços ao chão.
- Ellis! - gritou Owen correndo em direção a ela e a arrastando para dentro do hotel. A afastando da porta e evitando que se mais tiros fossem disparados a atingissem.
O pânico tomou conta dos hóspedes e clientes dos restaurantes. Os que estavam fora correram para dentro do hotel novamente. Na recepção Philip pedia para ligarem para a polícia. Enquanto Brandon voltou ao primeiro restaurante para pedir que todos mantivessem a calma. Owen por sua vez só conseguia pensar no bem estar de Ellis e do seu filho. Olhou-a de cima a baixo procurando ferimentos.
- Está ferida? Se machucou?
- Não! - Ellis tremia de alto abaixo observando a porta agora inexistente onde ela estava parada. - Eu seria baleada... Eu poderia ter morrido.
Owen a abraçou tentado controlar o corpo trêmulo dela e o seu próprio medo de perdê-la.
- Fique tranquila, querida. Você está bem. Nada aconteceu - tentou consolá-la, mas o susto havia sido grande e Ellis não conseguiu segurar as lágrimas. Tocou em sua barriga ainda pequena. Se algo acontecesse ao seu bebê ela morreria.
- Está sentindo alguma coisa? - preocupado tocou o ventre dela também.
- Não! - respondeu entre lágrimas, abraçando-o novamente. - Eu só me assustei. Estava ali a pouco, só me virei para entrar e... E...
- Calma, querida. Vai ficar tudo bem - sussurrou para ela tentando tranquilizá-la. Philip se aproximou com ar preocupado vendo o nervosismo de Ellis. - Assim que for seguro vou levá-la ao hospital, não vou poder ficar.
- Tudo bem Owen, vá! Brandon e eu cuidaremos de tudo.
***
Owen acendia as luzes do apartamento enquanto levava Ellis nos braços para o quarto deles. O médico administrou um calmante, pois ela estava muito nervosa. Depois de horas em repouso ainda continuava sonolenta, mas ela e o filho que esperavam estavam bem.
Owen a colocou na cama, retirou seu vestido, as sandálias e desfez o penteado. Puxou as cobertas, mas antes se aproximou da sua barriga e sussurrou:
- Estou orgulhoso de você, é muito forte. Descanse! A mamãe também está descansando. Eu vou cuidar de vocês. - Beijou a barriga de Ellis com carinho. - Nós te amamos!
Cobriu Ellis e tirou a própria roupa entrando nas cobertas com ela. O dia não demoraria a chegar, mas ficaria com a sua mulher. Desligou o telefone e a abraçou. Não existia nada mais importante em sua vida do que Ellis e seu filho.