Lara Shert
O som da porta batendo ainda ecoa quando solto o ar que nem percebo que prendo. Encosto a cabeça na parede, sentindo o coração bater forte demais no peito, como se quisesse rasgar as costelas para fugir primeiro.
Os lábios ainda ardem do beijo dele.
O gosto de Marlon permanece em mim. Quente. Possessivo. Sufocante.
Como se ele ainda estivesse aqui.
Devagar, deixo o corpo escorregar pela parede até sentar no chão. Os joelhos dobrados, o peito subindo e descendo rápido demais. Levo os dedos à boca, tocando os próprios lábios, lembrando da força com que ele me segurou. Do peso do corpo colado ao meu. Do controle que quase perdeu.
E então sorrio.
Não é um sorriso bonito.
É lento. Perigoso.
Quase inocente, mas não existe nada de inocente nele.
- Você perdeu, marido... - murmuro baixo, mais para o silêncio do que para mim.
- E ainda nem percebeu.
Levanto-me sem pressa. Cada passo até a cama é calculado, consciente. Os pés afundam no tapete macio enquanto o quarto permanece quieto demais. Mas a tensão... a tensão ainda vibra. Como se as paredes tivessem absorvido tudo o que não aconteceu.
Deito-me de costas. Os cabelos se espalham pelo travesseiro. Fecho os olhos por um instante.
Meu corpo ainda pulsa. Quente. Inquieto.
A lembrança de Marlon me segurando atravessa meu peito como uma descarga. O cheiro dele. A voz rouca, carregada de desejo contido. Tudo isso faz minha respiração falhar.
Mordo o lábio inferior.
Meus dedos deslizam pela própria pele. Primeiro pelo pescoço. Depois pelos ombros. Lentamente. Sem pressa. Sem pudor. Não é só prazer.
É provocação.
Sei que Marlon está do outro lado da porta.
Sei que ele não foi longe.
Posso quase senti-lo no corredor, tenso, inquieto, lutando contra algo que já o venceu por dentro.
E é justamente por isso...
Decido provocar só mais um pouco.
Os dedos descem pela barriga, traçando círculos lentos. Cada movimento é consciente demais para ser impulso. Descem mais. Até encontrar o elástico fino da calcinha.
Abro os olhos e encaro o teto.
Um sorriso malicioso surge nos meus lábios.
- A sua casa... - sussurro. - As suas regras, não é?
Fecho os olhos outra vez, a voz é quase um segredo.
- Veremos, Marlon... - respiro fundo. - Veremos.
Marlon
O corredor parece estreito demais.
O ar, pesado demais.
Saio do quarto como quem foge de um incêndio - mas levo as chamas comigo. Cada passo é lento, calculado, como se meu próprio corpo lutasse contra o instinto de voltar.
Preciso respirar.
Preciso de distância.
Preciso lembrar quem sou... e por que não posso cruzar essa linha.
Encosto as costas na parede fria, tentando estabilizar a respiração. O coração desacelera só o bastante para que a verdade atravesse.
Não é consciência. É contenção.
Se fosse qualquer outra mulher, eu já teria ido até o fim. Teria usado o corpo, a força, a fome. Teria tomado, sem medir, sem freio, sem depois. Sempre foi assim. Sempre bastou.
Mas Lara não é "qualquer outra".
Porque eu sei o que acontece quando eu paro de segurar. Sei o quanto eu puxo, o quanto exijo, o quanto não cedo. Sei que não é suave. Nunca foi.
E sei que, se eu deixar isso escapar... ela não aguentaria.
Não o ritmo. Não a intensidade. Não o quanto eu iria querer mais, sempre mais, mesmo quando ela já estivesse no limite.
E pela primeira vez na minha vida, isso não me excita.
Me deixa perigoso demais para agir.
Um ruído seco vem do fim do corredor.
Paro.
Não é a casa rangendo. Não é o vento. É curto demais para ser acaso. Como metal tocando metal.
Abro os olhos. Escuto de novo.
Nada.
Ainda assim, a sensação não passa. A certeza incômoda de que aquela casa - que sempre foi extensão do meu controle - hoje me observa de volta.
Penso nas câmeras.
Nos funcionários.
Em quem pode estar acordado.
Em quem não deveria estar aqui... mas está.
Então eu ouço.
- Mar... Marlon... ahn...
A voz dela.
Baixa. Arrastada. Carregada de desejo.
O som me atinge como um soco. Meu corpo inteiro se retesa. O ar fica preso na garganta. Aperto os olhos com força, mas é inútil. O som ecoa na minha mente, queima na minha pele, crava fundo demais.
Minha mão se fecha em punho. Os músculos do braço tensionam até doer.
- Droga, Lara... - murmuro, quase sem voz.
Minha cabeça vira um caos. Parte de mim quer voltar. Quer atravessar aquele corredor, agarrá-la, acabar com esse jogo de uma vez. Mas a outra parte - a racional, a que ainda tenta me manter inteiro - grita para eu me afastar.
Não posso.
Não devo.
Não com ela.
Passo as mãos pelo rosto, respirando fundo, tentando lembrar de tudo o que está em jogo. O contrato. As regras. As consequências. A promessa que fiz ao meu amigo.
"Proteja-a."
Mas como sustentar isso quando o desejo atropela a razão?
O gosto dos meus lábios ainda está nela. O beijo que nunca deveria ter acontecido. O toque dela. A pele quente. O cheiro doce que me persegue.
Eu me amaldiçoo por ter cedido.
Por ter sido fraco.
Por ter dado a ela exatamente o que agora pode me destruir.
Chego ao meu quarto e fecho a porta com força. Encosto a testa no painel frio, tentando recuperar algum traço de autocontrole.
O ar não vem.
Caminho até a janela, apoio as mãos no parapeito. O sol brilha lá fora, mas só sinto o calor que vem de dentro - pulsando sob a pele, queimando cada pedaço de mim.
- Não pode acontecer... - sussurro. - Não de novo.
Mas já acontece.
Já provei do proibido.
E agora... eu quero mais.
Fecho os olhos. Tento afastar a imagem dela, os cabelos espalhados pelos lençóis, o olhar desafiador, os lábios entreabertos. Quanto mais tento... mais forte fica.
Então ouço de novo.
O gemido.
Depois outro.
E, mais uma vez... o meu nome.
Meu corpo reage antes de qualquer pensamento.
E então... outro som se mistura a ele.
Um telefone vibrando.
Não o meu.
Abro os olhos imediatamente.
O som vem do andar de baixo. Curto. Insistente. Profissional demais para ser coincidência.
Meu estômago afunda.
Aquilo não é desejo me chamando.
É problema.
E problema, naquela casa, nunca chega sozinho.
Se alguém já está ouvindo, ou se alguém já sabe... o que exatamente eu acabei de expor, e até onde isso pode nos destruir?