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Ele não é meu pai!
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10 Capítulo
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Capítulo 10 Consequências dos meus Atos

Lara Shert

O som da porta batendo ainda ecoa quando solto o ar que nem percebo que prendo. Encosto a cabeça na parede, sentindo o coração bater forte demais no peito, como se quisesse rasgar as costelas para fugir primeiro.

Os lábios ainda ardem do beijo dele.

O gosto de Marlon permanece em mim. Quente. Possessivo. Sufocante.

Como se ele ainda estivesse aqui.

Devagar, deixo o corpo escorregar pela parede até sentar no chão. Os joelhos dobrados, o peito subindo e descendo rápido demais. Levo os dedos à boca, tocando os próprios lábios, lembrando da força com que ele me segurou. Do peso do corpo colado ao meu. Do controle que quase perdeu.

E então sorrio.

Não é um sorriso bonito.

É lento. Perigoso.

Quase inocente, mas não existe nada de inocente nele.

- Você perdeu, marido... - murmuro baixo, mais para o silêncio do que para mim.

- E ainda nem percebeu.

Levanto-me sem pressa. Cada passo até a cama é calculado, consciente. Os pés afundam no tapete macio enquanto o quarto permanece quieto demais. Mas a tensão... a tensão ainda vibra. Como se as paredes tivessem absorvido tudo o que não aconteceu.

Deito-me de costas. Os cabelos se espalham pelo travesseiro. Fecho os olhos por um instante.

Meu corpo ainda pulsa. Quente. Inquieto.

A lembrança de Marlon me segurando atravessa meu peito como uma descarga. O cheiro dele. A voz rouca, carregada de desejo contido. Tudo isso faz minha respiração falhar.

Mordo o lábio inferior.

Meus dedos deslizam pela própria pele. Primeiro pelo pescoço. Depois pelos ombros. Lentamente. Sem pressa. Sem pudor. Não é só prazer.

É provocação.

Sei que Marlon está do outro lado da porta.

Sei que ele não foi longe.

Posso quase senti-lo no corredor, tenso, inquieto, lutando contra algo que já o venceu por dentro.

E é justamente por isso...

Decido provocar só mais um pouco.

Os dedos descem pela barriga, traçando círculos lentos. Cada movimento é consciente demais para ser impulso. Descem mais. Até encontrar o elástico fino da calcinha.

Abro os olhos e encaro o teto.

Um sorriso malicioso surge nos meus lábios.

- A sua casa... - sussurro. - As suas regras, não é?

Fecho os olhos outra vez, a voz é quase um segredo.

- Veremos, Marlon... - respiro fundo. - Veremos.

Marlon

O corredor parece estreito demais.

O ar, pesado demais.

Saio do quarto como quem foge de um incêndio - mas levo as chamas comigo. Cada passo é lento, calculado, como se meu próprio corpo lutasse contra o instinto de voltar.

Preciso respirar.

Preciso de distância.

Preciso lembrar quem sou... e por que não posso cruzar essa linha.

Encosto as costas na parede fria, tentando estabilizar a respiração. O coração desacelera só o bastante para que a verdade atravesse.

Não é consciência. É contenção.

Se fosse qualquer outra mulher, eu já teria ido até o fim. Teria usado o corpo, a força, a fome. Teria tomado, sem medir, sem freio, sem depois. Sempre foi assim. Sempre bastou.

Mas Lara não é "qualquer outra".

Porque eu sei o que acontece quando eu paro de segurar. Sei o quanto eu puxo, o quanto exijo, o quanto não cedo. Sei que não é suave. Nunca foi.

E sei que, se eu deixar isso escapar... ela não aguentaria.

Não o ritmo. Não a intensidade. Não o quanto eu iria querer mais, sempre mais, mesmo quando ela já estivesse no limite.

E pela primeira vez na minha vida, isso não me excita.

Me deixa perigoso demais para agir.

Um ruído seco vem do fim do corredor.

Paro.

Não é a casa rangendo. Não é o vento. É curto demais para ser acaso. Como metal tocando metal.

Abro os olhos. Escuto de novo.

Nada.

Ainda assim, a sensação não passa. A certeza incômoda de que aquela casa - que sempre foi extensão do meu controle - hoje me observa de volta.

Penso nas câmeras.

Nos funcionários.

Em quem pode estar acordado.

Em quem não deveria estar aqui... mas está.

Então eu ouço.

- Mar... Marlon... ahn...

A voz dela.

Baixa. Arrastada. Carregada de desejo.

O som me atinge como um soco. Meu corpo inteiro se retesa. O ar fica preso na garganta. Aperto os olhos com força, mas é inútil. O som ecoa na minha mente, queima na minha pele, crava fundo demais.

Minha mão se fecha em punho. Os músculos do braço tensionam até doer.

- Droga, Lara... - murmuro, quase sem voz.

Minha cabeça vira um caos. Parte de mim quer voltar. Quer atravessar aquele corredor, agarrá-la, acabar com esse jogo de uma vez. Mas a outra parte - a racional, a que ainda tenta me manter inteiro - grita para eu me afastar.

Não posso.

Não devo.

Não com ela.

Passo as mãos pelo rosto, respirando fundo, tentando lembrar de tudo o que está em jogo. O contrato. As regras. As consequências. A promessa que fiz ao meu amigo.

"Proteja-a."

Mas como sustentar isso quando o desejo atropela a razão?

O gosto dos meus lábios ainda está nela. O beijo que nunca deveria ter acontecido. O toque dela. A pele quente. O cheiro doce que me persegue.

Eu me amaldiçoo por ter cedido.

Por ter sido fraco.

Por ter dado a ela exatamente o que agora pode me destruir.

Chego ao meu quarto e fecho a porta com força. Encosto a testa no painel frio, tentando recuperar algum traço de autocontrole.

O ar não vem.

Caminho até a janela, apoio as mãos no parapeito. O sol brilha lá fora, mas só sinto o calor que vem de dentro - pulsando sob a pele, queimando cada pedaço de mim.

- Não pode acontecer... - sussurro. - Não de novo.

Mas já acontece.

Já provei do proibido.

E agora... eu quero mais.

Fecho os olhos. Tento afastar a imagem dela, os cabelos espalhados pelos lençóis, o olhar desafiador, os lábios entreabertos. Quanto mais tento... mais forte fica.

Então ouço de novo.

O gemido.

Depois outro.

E, mais uma vez... o meu nome.

Meu corpo reage antes de qualquer pensamento.

E então... outro som se mistura a ele.

Um telefone vibrando.

Não o meu.

Abro os olhos imediatamente.

O som vem do andar de baixo. Curto. Insistente. Profissional demais para ser coincidência.

Meu estômago afunda.

Aquilo não é desejo me chamando.

É problema.

E problema, naquela casa, nunca chega sozinho.

Se alguém já está ouvindo, ou se alguém já sabe... o que exatamente eu acabei de expor, e até onde isso pode nos destruir?

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